quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O CARNAVAL E OS SEIOS DE DERCY

Multidões a desfilar suas dores, rindo das mágoas e debochando do medo. O expurgo das nossas tristezas em praça pública não alivia, nem aliena. O suor não carrega os problemas. Lavados, eles talvez só fiquem mais claros. Para melhor observá-los, eu me transmudo, em rei ou escravo, eu sou a máscara! É a superação da inércia humana. Eu não serei a permanência da minha imagem, mas quantos reflexos imaginar. Assim, vou me livrando da alienação das ideias soberanas, constituintes, receosas do exercício criativo. Através do outro, contraceno com minha dor, beijo sua boca, mas não consigo arrancar seus dentes.

Quem tudo espreita, capital!, governo!, quantos sejam, farejarão saldos e controles, suspeitando que fantasia é fuga. Eles também irão satisfazer o ego dos indecisos, delimitando espaços menos públicos, onde a riqueza, de ouro ou purpurina, observará o desfile dos decididos. Estes dirão sim a outra transfiguração, serão um só corpo e só espírito no emaranhado da avenida. Todos a desfilarem suas pequenas tragédias, como carros alegóricos. 

Numa destas alegorias, escandalosamente enfeitadas, vem Dercy Gonçalves, com os seios à mostra! - e assim ela de fato o fez em 1991, pela Viradouro. Com a avenida já tomada, Dercy vem plena, digna. Se os de fora veem exploração machista ou despudor, isso não está nela. Seus seios são parte do seu corpo, como lhe são os dentes. Dercy ri do desconforto alheio, das teses alheias. Grande atriz, e por isso comediante, ela intui a revolução do humor. E nós, sob a mesma bandeira, rimos do desconforto nosso, das teses nossas. No assombro da avenida, Dercy e nós, exímios brasileiros, vamos a batucar letras tristíssimas. Debochadas as verdades, conseguimos seguir Dercy, e somos agora um mesmo seio e uma mesma dor.

No melhor da festa, comédia!, chegamos ao fim. Na dispersão, cobrimos os peitos e tiramos a máscara, Dercy se vai. A dor voltará a sorrir, mas agora eu sei que os seus dentes não são os meus. Mais além, agora eu suspeito que as minhas certezas são postiços caninos. Transformados, estamos mais presentes, para a angústia presente, para o abuso presente. O distanciamento, do humor, da fantasia, não é fuga, é presença consciente. E se querem rir dos meus seios, fiquem à vontade, só não ponham a mão!, não sem a minha permissão.
Dercy Gonçalves, aos 83 anos, no desfile da escola de samba Viradouro. Carnaval de 1991, no Rio de Janeiro (reprodução do site G1)
   

Ressuscitar

A última postagem foi há 10 anos, exatamente num carnaval. Será delírio? Após a quarta-feira de cinzas, terei recobrado a razão? Enquanto não passa, perco completamente a noção, e me deito nos clichês. Evoé repetição!