sexta-feira, 2 de março de 2018

Brincar de Madame...

"As criadas", na montagem do grupo Tapa, é uma daquelas peças em que você nem sabe como chegou em casa. Você sai flutuando do teatro. Todos os teus sentidos, mentais e corporais, foram atiçados pela alternância incessante entre comédia e tragédia. O jogo, que parecia inofensivo, de repente te colocou em uma situação sem saída. Há poucos minutos, diante do palco, o conflito existencial e de classe se impôs e a luta entre criada X madame exigiu de você um posicionamento. 

Na trama, as criadas Clara e Solange são irmãs e aproveitam a ausência de Madame para brincarem. Clara imita a patroa, e Solange a empregada. Este papel poderia ser desempenhado por uma ou outra, indistintamente, pois Madame costuma confundir as duas criadas, como se ambas fossem uma só pessoa. A ironia é percebida e explorada pelas criadas, que a todo momento pontuam as pequenas humilhações e as grandes hipocrisias que cercam sua relação com Madame. Como diz Clara, é "porque Madame é boa, Madame é bela, Madame é bem criada!", e isso justifica a magnificência de Madame em deixá-las herdar suas roupas velhas, em deixá-las sentar ao lado de Madame na missa, e em deixá-las tirar umas folgas no domingo à tarde. A brincadeira passa também pelo deboche. Os humores de Madame são ridicularizados e a subserviência das criadas é estereotipada. Afinal, Clara sentencia, é necessário "rir, senão a tragédia nos joga pela janela". Em meio a tudo isso, porém, percebe-se o desejo de ser Madame. Clara e Solange deixam entrever que estão inclinadas a de fato vestirem as sedas e os poderes de Madame. E é aí que aparentemente termina a brincadeira. 

Clara e Solange têm um plano real de matarem Madame, e com isso herdarem a herança que esta as prometeu. Clara, inclusive, já fez das suas e denunciou o amante de Madame por corrupção. Tudo o que Clara e Solange ouviam por trás das portas municiaram as cartas anônimas que colocaram o amante de Madame na cadeia. Só que - e aí Madame sobe ao palco - o crime do seu amante é coisa pouca. Ele não é um criminoso, só umas corrupçõezinhas... E por isso ele acaba de ser solto. A propósito, o amante de Madame é senador. Por tudo que sabem, as criadas poderiam escrever mil cartas anônimas no intuito de destruírem Madame. Mas como? É fácil ser incorruptível quando se é bela e rica! Aliás, é fácil parecer incorruptível nestas condições. Não se vê o exemplo do senador? Seja como for, também não prospera o plano de matar Madame, e ela sai ao encontro de seu amante. 

Sozinhas, mais uma vez, Clara e Solange retomam a brincadeira. Agora, com um elemento adicional. O assassinato! Madame deverá ser assassinada no faz-de-conta. O desenrolar da história eu não posso dizer, não por acreditar em spoiler, mas em respeito a um segredo revelado entre 4 paredes (afinal, qual a diferença entre teatro e alcova?). O que importa é que, no desfecho, a comédia encarna de vez o trágico. E a tragédia das criadas Clara e Solange parece ser o de não conseguirem superar a oposição criada X madame. Em uma sociedade com tanta desigualdade, como esta da peça, não há muita escolha, e as criadas se veem em uma situação sem saída. Só existem 2 polos, e não se consegue passar para o lado de Madame. Em mais uma ironia da obra, a única alternativa de poder para as criadas parece ser tirar a vida de outrem. E assim, Solange ganha sua individualidade ao deixar o papel de criada e passar a ser a Incendiária, a Indiciada. Já Clara ganha sua liberdade ao passar a viver na memória do gesto da irmã.

Diante do absurdo, qual o posicionamento da plateia? Uma peça feita por um autor marginal, como Jean Genet, onde se dá voz a personagens à margem, como as criadas. E no outro extremo, uma plateia em geral classe média. A mesma que elegeu recentemente governos que prometiam, verdadeiramente ou não, diminuir a desigualdade de classes. Mas, qual foi a reação dessa plateia diante das recentes conquistas legais das suas empregadas domésticas? Será que essa plateia se viu em uma situação sem saída? E aí preferiu endossar a expulsão daquele governo que alardeava diminuir a dualidade criada X madame? Qual foi o posicionamento dessa plateia? Essa plateia foi ferida em seus brios de ser Madame, nem que fosse no recesso do seu lar? Afinal, é tão bom brincar de Madame, não é? Madame é boa, madame é bela, madame é bem criada...

("As Criadas", peça de Jean Genet, com direção de Eduardo Tolentino de Araujo, pelo grupo TAPA. Em cena, as atrizes Clara Carvalho, Emilia Rey e Mariana Muniz. Em cartaz até 15 de abril no Teatro Aliança Francesa, em São Paulo-SP. Esta montagem integra o festival "Que absurdo! Trilogia do Teatro do Absurdo.".)                     
                                  

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O CARNAVAL E OS SEIOS DE DERCY

Multidões a desfilar suas dores, rindo das mágoas e debochando do medo. O expurgo das nossas tristezas em praça pública não alivia, nem aliena. O suor não carrega os problemas. Lavados, eles talvez só fiquem mais claros. Para melhor observá-los, eu me transmudo, em rei ou escravo, eu sou a máscara! É a superação da inércia humana. Eu não serei a permanência da minha imagem, mas quantos reflexos imaginar. Assim, vou me livrando da alienação das ideias soberanas, constituintes, receosas do exercício criativo. Através do outro, contraceno com minha dor, beijo sua boca, mas não consigo arrancar seus dentes.

Quem tudo espreita, capital!, governo!, quantos sejam, farejarão saldos e controles, suspeitando que fantasia é fuga. Eles também irão satisfazer o ego dos indecisos, delimitando espaços menos públicos, onde a riqueza, de ouro ou purpurina, observará o desfile dos decididos. Estes dirão sim a outra transfiguração, serão um só corpo e só espírito no emaranhado da avenida. Todos a desfilarem suas pequenas tragédias, como carros alegóricos. 

Numa destas alegorias, escandalosamente enfeitadas, vem Dercy Gonçalves, com os seios à mostra! - e assim ela de fato o fez em 1991, pela Viradouro. Com a avenida já tomada, Dercy vem plena, digna. Se os de fora veem exploração machista ou despudor, isso não está nela. Seus seios são parte do seu corpo, como lhe são os dentes. Dercy ri do desconforto alheio, das teses alheias. Grande atriz, e por isso comediante, ela intui a revolução do humor. E nós, sob a mesma bandeira, rimos do desconforto nosso, das teses nossas. No assombro da avenida, Dercy e nós, exímios brasileiros, vamos a batucar letras tristíssimas. Debochadas as verdades, conseguimos seguir Dercy, e somos agora um mesmo seio e uma mesma dor.

No melhor da festa, comédia!, chegamos ao fim. Na dispersão, cobrimos os peitos e tiramos a máscara, Dercy se vai. A dor voltará a sorrir, mas agora eu sei que os seus dentes não são os meus. Mais além, agora eu suspeito que as minhas certezas são postiços caninos. Transformados, estamos mais presentes, para a angústia presente, para o abuso presente. O distanciamento, do humor, da fantasia, não é fuga, é presença consciente. E se querem rir dos meus seios, fiquem à vontade, só não ponham a mão!, não sem a minha permissão.
Dercy Gonçalves, aos 83 anos, no desfile da escola de samba Viradouro. Carnaval de 1991, no Rio de Janeiro (reprodução do site G1)
   

Ressuscitar

A última postagem foi há 10 anos, exatamente num carnaval. Será delírio? Após a quarta-feira de cinzas, terei recobrado a razão? Enquanto não passa, perco completamente a noção, e me deito nos clichês. Evoé repetição!