
"Persona", de Bergman (1966), com as atrizes Liv Ullmann (Elisabet) e Bibi Andersson (Irmã Alma) é o filme que eu queria ter visto logo após ter lido "A paixão segundo GH" (1964), mas só o vi muito tempo depois de ler Clarice (muito tempo pra quem tem só pouco mais de 20 anos, não é muito, mas respeitem minha noção de tempo, por favor).
Digo isso porque as personagens de Ullmann e da Andersson são a GH, em duas fases dessa personagem, mas que em um determinado momento se unem em uma só e depois voltam a ser distantes, assim como a GH antes-durante-depois da sua epifania (clichê sobre Clarice, perdão), a personagem de Ullmann já passou pela "revelação" de se saber outra por conta das expectativas alheias, do que ela se convencionou ser, e para, então, fugir disso e, talvez, ser sincera, ser ela mesma, cai no silêncio. Quando vai se tratar em uma clínica e recebe alta, pois não tem nenhum problema aparente, a sua médica lhe oferece sua casa de verão, onde Elisabet (Ullmann) vai, acompanhada de uma enfermeira, Alma (Andersson). No início, Alma parece ser uma pessoa normal (coitada) e em um determinado momento, sozinha, diz que vai se casar com seu namorado e ter filhos e esse é seu futuro, para o qual diz sim, como deve-se dizer sempre em situações de normalidade (depois não entendem porque a anormalidade sorri), mas, a partir da relação com Elisabet, do silêncio da outra e das conversas que passa a estabelecer com esta, monólogos não inteiramente solitários, pois Elisabet conversa com ela (não precisamos de palavras para isso), Alma começa a se sentir incomodada com sua "persona" e fala de seu passado e como talvez ela não seja o que sempre pareceu ser, ou no que realmente ela é, se é possível isso, pois como ela demonstra a Elisabet, não é plausível esta mudez perpétua diante da vida, pois no final sempre temos que assumir um papel, seja em quais circunstâncias ou sobre quais pressupostos se apresente a necessidade e os parâmetros para a construção dessa identidade. Isso se mostra quando Alma irritada, ameaça jogar água fervente em Elisabet e essa, por instinto de sobrevivência, grita. Pelo simples fato de ter instinto, pois é humano, o homem passa a agir no mundo e ao agir passa a se apresentar de uma determinada forma, e essa maneira de ser nunca é indiferente ao efeito que queremos provocar no outro ou ao que supomos/aprendemos que o outro, culturalme, espera de nós. Elisabet também tem um passado, revelado por Alma, que vai além de um simples grito e mostra a impossibilidade de "ser", ser verdadeira (para si mesma, para com o que se acha que é), pois é insustentável o momento da não identificação com o não-eu, ele pode se repetir e isso leva ao caminho apontado por Bernard Berenson, e citada por Clarice: "Uma vida completa talvez seja aquela que termina em tal identificação com o não-eu que não resta um eu para morrer.". O momento do não-eu é difícil e insustentável, assim como a leveza de Milan Kundera, e ele é experimentado por Elisabet, GH e Alma (esta a partir de Elisabet), mas as três se despedem, no final, desse não-eu tão individual e íntimo, bem como agregador e comum, a ligação com o universo, inclusive, num plano mais próximo, a própria ligação entre Alma e Elisabet, em um momento, ambas, uma única pessoa. E restam Alma, Elisabet e GH, talvez todas com a esperança da leveza, mas tragicamente fadadas ao peso de ter de ser alguém, e aí já se ser outra coisa ou outro alguém.
Outro ponto interessante, e não ligado a Clarice propriamente (não pelo fato de não ser Clarice experimental, ao contrário, Clarice experimentou em todos os sentidos, até no que se convencionou chamar experimentalismo, mas pela forma como Bergman foi experimental), foi, repito o parêntese, seu experimentalismo. Diferente de filmes como "Morangos Silvestres" ou "Cenas de um Casamento", Bergman faz uso de imagens aparentemente descontextualizadas e sem uma razão de ser, mas que depois vemos sua ligação, como por exemplo, a imagem da criança, parecidíssima com Andersson, contemplando a imagem triplicada do rosto de Ullmann. E essa desorganização inicial será a mesma das personagens. Organização ou desorganização, escolham.
Por fim, não só essas imagens como as demais, são belíssimas, e as atuações, Ullmann calada, fantásticas. Já Bergman, nem preciso falar.......nem sobre Clarice, que não entrou de gaiata na história.


Nenhum comentário:
Postar um comentário