sábado, 15 de dezembro de 2007

"Angélica", peça de Lúcio Cardoso

"Angélica", de Lúcio Cardoso, e pela primeira vez publicada no livro da editora UFPR, como falei na postagem anterior, estreou em 1950, sob a direção do próprio Lúcio Cardoso, tendo entre os atores Luiza Barreto Leite (só para se ter uma idéia, essa atriz, conforme Ruy Castro, atuou nas montagens originais de: "Vestido de Noiva", "Dorotéia", "A falecida", "Bonitinha, mas ordinária", todas de Nelson Rodrigues, que dizia que ela era incapaz tomar um copo de água sem paixão), que fez a protagonista.

Essa peça tem uma estória muito interessante e uma personagem, Angélica, fantástica, mas a ação é truncada, não é natural, os diálogos não são bons, sob o ponto de vista da encenação teatral. A impressão é que uma adaptação transformaria o texto em uma peça emocionante, porque como ele se apresenta, o texto, vemos antes uma obra literária mais próxima da novela do que da dramaturgia. Os dálogos não são naturais, são estáticos, parecem não fluir com naturalidade, e isso não é produto de um teatro que se quer denso ou desejoso em demonstrar a incomunicabilidade entre os personagens.
A estória, entretanto, como falamos, é emocionante, e se esquecermos que se trata, a princípio, de uma peça de teatro, podemos deixar de lado as falhas do autor em estabelecer a ação e vermos tudo como se fosse uma novela dialogada, acho que é possível.
Tudo se passa na casa de Angélica, numa cidade do interior, uma mulher de meia idade, muito rica e que vive cercada por dois empregados: Joana e Leôncio, este é um parente distante. Angélica tem o hábito de levar pra sua casa jovens moças órfãs, bonitas, mas muito debilitadas. Três dessas moças já morreram em sua casa, por conta, todas elas, de uma doença não diagnosticada e que faz com que suas enfermas acabem muito mal, feias, deformadas. Enquanto isso, Angélica continua cada vez mais bonita e jovem. Até que chega Lídia, outra moça para ser cuidada. entretanto, a estória vai ganhar outros contornos e Angélica terá em Leôncio um adversário.
Vocês pensaram em "O retrato de Dorian Gray"? É mais do que possível, mas aqui essa idéia é construída de outra maneira, até mais interessante, mas não tem um desenvolvimento tão bom quanto o dado por Oscar Wilde à sua estória. Talvez o problema foi ter pensado Lúcio Cardoso em fazer de "Angélica" uma peça, pois seu talento na prosa é superior.

Um comentário:

Rite disse...

Achei isso de um lirismo incomedido: "que dizia que ela era incapaz tomar um copo de água sem paixão".

Lindo!