"As criadas", na montagem do grupo Tapa, é uma daquelas peças em que você nem sabe como chegou em casa. Você sai flutuando do teatro. Todos os teus sentidos, mentais e corporais, foram atiçados pela alternância incessante entre comédia e tragédia. O jogo, que parecia inofensivo, de repente te colocou em uma situação sem saída. Há poucos minutos, diante do palco, o conflito existencial e de classe se impôs e a luta entre criada X madame exigiu de você um posicionamento.
Na trama, as criadas Clara e Solange são irmãs e aproveitam a ausência de Madame para brincarem. Clara imita a patroa, e Solange a empregada. Este papel poderia ser desempenhado por uma ou outra, indistintamente, pois Madame costuma confundir as duas criadas, como se ambas fossem uma só pessoa. A ironia é percebida e explorada pelas criadas, que a todo momento pontuam as pequenas humilhações e as grandes hipocrisias que cercam sua relação com Madame. Como diz Clara, é "porque Madame é boa, Madame é bela, Madame é bem criada!", e isso justifica a magnificência de Madame em deixá-las herdar suas roupas velhas, em deixá-las sentar ao lado de Madame na missa, e em deixá-las tirar umas folgas no domingo à tarde. A brincadeira passa também pelo deboche. Os humores de Madame são ridicularizados e a subserviência das criadas é estereotipada. Afinal, Clara sentencia, é necessário "rir, senão a tragédia nos joga pela janela". Em meio a tudo isso, porém, percebe-se o desejo de ser Madame. Clara e Solange deixam entrever que estão inclinadas a de fato vestirem as sedas e os poderes de Madame. E é aí que aparentemente termina a brincadeira.
Clara e Solange têm um plano real de matarem Madame, e com isso herdarem a herança que esta as prometeu. Clara, inclusive, já fez das suas e denunciou o amante de Madame por corrupção. Tudo o que Clara e Solange ouviam por trás das portas municiaram as cartas anônimas que colocaram o amante de Madame na cadeia. Só que - e aí Madame sobe ao palco - o crime do seu amante é coisa pouca. Ele não é um criminoso, só umas corrupçõezinhas... E por isso ele acaba de ser solto. A propósito, o amante de Madame é senador. Por tudo que sabem, as criadas poderiam escrever mil cartas anônimas no intuito de destruírem Madame. Mas como? É fácil ser incorruptível quando se é bela e rica! Aliás, é fácil parecer incorruptível nestas condições. Não se vê o exemplo do senador? Seja como for, também não prospera o plano de matar Madame, e ela sai ao encontro de seu amante.
Sozinhas, mais uma vez, Clara e Solange retomam a brincadeira. Agora, com um elemento adicional. O assassinato! Madame deverá ser assassinada no faz-de-conta. O desenrolar da história eu não posso dizer, não por acreditar em spoiler, mas em respeito a um segredo revelado entre 4 paredes (afinal, qual a diferença entre teatro e alcova?). O que importa é que, no desfecho, a comédia encarna de vez o trágico. E a tragédia das criadas Clara e Solange parece ser o de não conseguirem superar a oposição criada X madame. Em uma sociedade com tanta desigualdade, como esta da peça, não há muita escolha, e as criadas se veem em uma situação sem saída. Só existem 2 polos, e não se consegue passar para o lado de Madame. Em mais uma ironia da obra, a única alternativa de poder para as criadas parece ser tirar a vida de outrem. E assim, Solange ganha sua individualidade ao deixar o papel de criada e passar a ser a Incendiária, a Indiciada. Já Clara ganha sua liberdade ao passar a viver na memória do gesto da irmã.
Diante do absurdo, qual o posicionamento da plateia? Uma peça feita por um autor marginal, como Jean Genet, onde se dá voz a personagens à margem, como as criadas. E no outro extremo, uma plateia em geral classe média. A mesma que elegeu recentemente governos que prometiam, verdadeiramente ou não, diminuir a desigualdade de classes. Mas, qual foi a reação dessa plateia diante das recentes conquistas legais das suas empregadas domésticas? Será que essa plateia se viu em uma situação sem saída? E aí preferiu endossar a expulsão daquele governo que alardeava diminuir a dualidade criada X madame? Qual foi o posicionamento dessa plateia? Essa plateia foi ferida em seus brios de ser Madame, nem que fosse no recesso do seu lar? Afinal, é tão bom brincar de Madame, não é? Madame é boa, madame é bela, madame é bem criada...
("As Criadas", peça de Jean Genet, com direção de Eduardo Tolentino de Araujo, pelo grupo TAPA. Em cena, as atrizes Clara Carvalho, Emilia Rey e Mariana Muniz. Em cartaz até 15 de abril no Teatro Aliança Francesa, em São Paulo-SP. Esta montagem integra o festival "Que absurdo! Trilogia do Teatro do Absurdo.".)

